terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Ignorando a Bíblia

A maior parte dos textos anarquistas do século XIX revela uma concepção de natureza humana boa e solidária, que, se não se realiza, é apenas por ser reprimida pelo poder – Estado, Igreja e instituições repressoras em geral. A idéia caiu um pouco em desuso na segunda metade do século XX, o que não impediu, porém, que um anarquista charlatão como Chomsky continuasse dizendo a mesma coisa.

Em Deus e o Estado, publicado em 1882, Bakunin escreve: «Fazei com que todas as necessidades se tornem realmente solidárias, que os interesses materiais e sociais de cada um tornem-se iguais aos deveres humanos de cada um. E, para isso, só há um meio: destruí todas as instituições da desigualdade; estabelecei a igualdade econômica e social de todos, e, sobre esta base, elevar-se-á a liberdade, a moralidade, a humanidade solidária de todos».

Kropotkin, em Moralidade Anarquista, panfleto que tenta explicar a base da moralidade, defende que o sentimento de solidariedade é a característica fundamental de todos os animais que vivem em sociedade. Contrapondo-se à idéia de que a busca pela sobrevivência seria o «motor» do desenvolvimento animal, Kropotkin afirma que, em todas as sociedades de animais, «a solidariedade é uma lei natural de muito mais importância do que a luta pela existência». Sua crença na solidariedade e ajuda mútua é tal que, para ele, não há necessidade de impô-las. Pelo contrário, seria justamente em condições de plena liberdade e igualdade que a solidariedade poderia se desenvolver. Assim, diz Kropotkin, «nós não temos medo de dizer: ‘faça o que quiser; aja como quiser’; porque estamos convencidos de que a grande maioria da humanidade, em proporção ao grau de esclarecimento e completude com os quais ela se liberta dos grilhões existentes, irá se conduzir e agir sempre numa direção útil para a sociedade, assim como estamos persuadidos de antemão que uma criança irá um dia andar sob os dois pés e não de quatro».

A idéia de um poder que impede a boa natureza humana de se realizar plenamente está presente também n’A Anarquia, o panfleto mais conhecido de Malatesta. Diz ele: «Desaparecidos os governos, estando a riqueza social à disposição de todos, todos os antagonismos desaparecerão rapidamente entre os povos, e a guerra não terá mais razão de existir».

Pergunto então aos meus botões: esses caras leram a Bíblia? Ao trocarmos alguns olhares, eles se revelam tão chocados quanto eu. Porque, ao lê-la, ficamos com a impressão de que a natureza humana é um pouquinho, mas um pouquinho só, menos boa e solidária do que esses anarquistas pensavam.

Como ter tanta esperança no homem se o próprio Deus viu que «a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo desígnio de seu coração» (Gn 6, 5)? Como manter qualquer centelha de esperança de que o homem irá (sozinho) erigir sobre a terra o reino da liberdade e da moralidade, logo ele, a criatura cuja maldade corrompeu toda a criação, como atestam as palavras de Deus: «Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens» (Gn 6, 13)? Não obstante, como acreditar no homem se, mesmo após o dilúvio, Deus afirma a Noé que «os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância» (Gn 8, 21)? Se, ao ser questionado por Moisés sobre que fizera o povo para atrair sobre si pecado tão grave, Aarão responde: «Que não se acenda a cólera do meu senhor; tu sabes quanto este povo é inclinado para o mal» (Ex 32, 21-23)? Se, além disso, Deus diz a Moisés que os israelitas devem fazer borlas nas pontas das suas vestes, e na borla da ponta colocar um fio de púrpura violeta, para que, vendo a borla, lembrem dos mandamentos de Deus e os coloquem em prática, «sem jamais seguir os desejos dos vossos corações e dos vossos olhos, que vos têm levado a vos prostituir» (Nm 15, 37-39)?

É do mesmo homem que estamos falando? Os socialistas do século XIX pensavam no mesmo homem que Moisés, quando este, em seu segundo discurso aos israelitas, suplicou a Iahweh: «Não atentes para a obstinação deste povo, para sua perversidade e seu pecado» (Dt 9, 27)? E isso porque nem passamos do Pentateuco.

Meus botões permanecem calados. Francamente, não posso acreditar que os socialistas do século XIX não tenham lido as Escrituras, sendo eles filhos de nobres (Kropotkin), de proprietários de terras (Bakunin) ou apenas de família abastada (Malatesta). É claro que eles as leram, mas, movidos por uma enorme revolta, acabaram por radicalizar sua preocupação com os oprimidos e acreditaram ser possível remediar sua situação miserável aqui, neste mundo. Se ela nasceu com o cristianismo, a preocupação com os oprimidos (ou vítimas, como prefere Girard) tornou-se, por meio dos socialistas, uma monstruosidade oposta a ele. Acreditando-se muito lúcidos, os socialistas se esqueceram do ceticismo salutar que os textos bíblicos mantêm com relação ao homem.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sobre o ressentimento

Em um dos inumeráveis e monótonos protestos ocorridos na PUC-SP, lembro-me de ter visto uma faixa pendurada com o aviso: «Burguês, nós nos veremos na Revolução!», ou algo que o valha, possivelmente com algum erro de concordância. Na hora, pensei em como o militante autor daquela asneira era idiota. Idiota e ressentido. Desgostava-me em particular a idéia de que o sujeito, a despeito de ser um imbecil, ainda precisasse projetar para o futuro seu acerto de contas com a burguesia. Minha crítica de então era, grosso modo, a mesma que os nietzschianos fazem ao cristianismo. Aquele militante era idiota porque era fraco, e, incapaz de dar vazão a sua raiva, dizia ao objeto de seu impulso (e a si mesmo) que um dia a justiça seria feita – isto é, os burgueses como eu, minha mãe e você seriam fuzilados.

Mas será esse o mesmo sentimento que anima o cristão a pensar no juízo final? Serão cristãos e comunistas igualmente fracos e ressentidos? É certo que muitas pessoas, ao se perceberem incapazes de se vingar aqui, neste mundo, projetam seu acerto de contas para o outro. Quem nunca se encontrou fraco e impotente diante de uma agressão e desejou que Deus, no momento de julgar uns e outros, fizesse justiça e castigasse o agressor? Nada há de mais humano. Em sua Legenda Áurea, o dominicano Jacopo narra o seguinte episódio da vida de São Tomé:
«Mas ele [o santo] não comia nem bebia e mantinha os olhos constantemente voltados para o Céu, o que desagradou um serviçal da corte, que esbofeteou o apóstolo de Deus. Este então disse: ‘É melhor para você ser punido na terra com um castigo passageiro e ser futuramente perdoado. Eu não me levantarei enquanto a mão que me bateu não for trazida até aqui por cães’. Ora, quando aquele serviçal foi buscar água na fonte, um leão estrangulou-o e bebeu seu sangue. Cães dilaceraram seu cadáver e um deles, preto, levou a mão direita até o local do banquete».

Tanto Jacopo como Agostinho questionam a autenticidade do relato. Ademais, se o fato realmente ocorreu, dizem, não deve ser interpretado como vingança, mas como predição. Em outras palavras, se o relato é autêntico, então São Tomé não desejou vingança contra o serviçal, mas previu o que lhe aconteceria e pensou que, no fim das contas, melhor era ao serviçal ser castigado em vida do que pagar depois.

Autêntico ou não, penso que tal relato deve fazer os pouco simpáticos ao cristianismo exultarem de satisfação. É, para eles, mais uma prova do ressentimento cristão. Não há, crêem eles, nenhuma justiça divina, e quem não acerta as contas neste mundo, bem, não o faz porque não consegue, porque é fraco e ressentido – e, nesse caso, precisa projetar o fim de sua frustração para o outro mundo.

Creio, porém, que o cristão está mais imune ao ressentimento do que comunistas, nietzschianos e ateus em geral. (Eu estava prestes a escrever que é muito fácil mostrar como os cristãos são menos ressentidos do que os outros, e que eu poderia dar uma dezena de razões, mas que daria apenas uma, pois isso tudo é óbvio. Na verdade, porém, meu distúrbio de déficit de atenção está quase me fazendo tremer e eu quero acabar logo esse textinho, então vou dar apenas uma razão, não porque tudo isso seja óbvio e eu queira afetar um ar de superioridade, mas apenas porque eu quero fumar um cigarro no quintal e pensar em outra coisa.)

Meditemos alguns instantes nalgumas famosas palavras do Evangelho: «Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao homem mau». Se assumimos que não há transcendência, nem Deus e tampouco justiça divina, então nossa resposta perante aquele que nos dá um tabefe na face direita será devolver o tabefe. Ocorre que somos todos fracos, e, se somos mais fortes que alguns – aos quais podemos devolver o tabefe –, é inevitável que nos deparemos com alguém mais forte e voltemos a ser, como quase sempre, fracos, de modo que ou (1) tentaremos devolver o tabefe e receberemos muitos outros ou (2) nos resignaremos. A conseqüência de qualquer uma das duas situações será o ressentimento.

Entretanto, diferentemente do comunista, do nietzschiano e de outros ateus, o cristão tem fé, isto é, tem esperança. Para citar Bento XVI em sua última carta encíclica, «uma esperança fiável, em virtude da qual podemos afrontar nosso presente: o presente, mesmo um presente penoso, pode ser vivido e aceito se ele conduz a um término e se nós podemos estar seguros desse término, se esse término é tão grande que ele pode justificar os esforços do caminho». É claro que um sujeito que só consegue aceitar um tapa na face se puder pensar em como seu agressor sofrerá no inferno não é lá muito cristão. Ele está a mercê do mais reles ressentimento, bem como os ateus. Se, ao contrário, ele pensar em sua agressão como um episódio de seu presente, por vezes penoso, mas cujo término é certo, grande e justifica seus esforços, não precisará se apoiar em delírios de vingança, pois que há algo maior a esperá-lo. Esse término tem necessariamente que ser em outro mundo (eu, pessoalmente, acho mais fácil acreditar na vida eterna e nos milagres bíblicos do que na «emancipação humana»).

Para o ateu, só há o ressentimento nesta vida e a não-existência depois dela. O cristão, por outro lado, tem a esperança de que, ao tentar imitar nosso Senhor, será recompensado depois desta vida. É mais do que óbvio que essa imitação é duríssima. No mais, é forçoso dizer que a idéia de não resistir ao homem mal provoca não poucos mal-entendidos. Chestov, em Les Commencements et les Fins, afirma: «On ne peut le nier, la doctrine de la non-résistance au mal est de tout ce que nous lisons dans l’Evangile ce qu’il y a de plus terrible et en même temps ce qu’il y a de plus irrationnel et de plus énigmatique. Tout notre être raisonnable se cabre à la pensée que le malfaiteur garde la pleine liberté matérielle d’accomplir ses forfaits. Comment permettre à un brigand de tuer sous tes yeux un enfant innocent sans dégaîner ton épée?» Ora, o exemplo de Chestov não é apenas um mal-entendido, é um crime (não falo do assassinato da criança inocente, o que é evidente, mas de assisti-lo sem nada fazer). Ter paciência com aquele que nos faz um mal e até mesmo perdoá-lo é algo muito diferente de não resistir ao mal no mundo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sobre samba e arrogância

Ontem, no trabalho, conversei rapidamente com o Dionisius sobre samba. Nossa questão era a diferença de qualidade entre o que compositores famosos produziram – Cartola, Nelson, Paulinho – e a maior parte do que se ouve hoje sob o nome de samba. Trata-se de uma questão sobre a qual já refleti diversas vezes: eu gosto muito de samba, é das coisas que mais gosto de escutar; gosto, porém, daquilo que eu mesmo considero «samba», isto é, uma dúzia de cantores e compositores notáveis, e o resto eu acho ruim e nem mesmo considero samba.

Então, posso dizer que, além dos três citados acima, gosto de Nelson Sargento, Dona Ivone Lara, Leci Brandão, Monarco e toda a velha guarda da Portela, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme, etc. etc. O resto eu rotulo como «pagode». Trata-se de uma diferenciação bastante arbitrária. Sambistas muito bons não vêem problema em chamar de «pagode» a música que fazem, como o faz, por exemplo, Paulinho:

Domingo, lá na casa do Vavá
Teve um tremendo pagode
Que você não pode imaginar

Segundo me diz a Agenda do Samba e Choro, «pagode, na verdade, não é um estilo, mas a reunião das pessoas para cantar samba». Isso faz sentido e espero um dia poder me debruçar sobre a questão com mais atenção. De qualquer forma, o que importa no momento é que considero «samba» todos os sambas bons e «pagode» todos os sambas ruins. Sim, é uma definição arbitrária e arrogante. E a maior parte de meus amigos que gostam de samba fazem o mesmo.

Para voltar a minha conversa com Dionisius, é impressionante o abismo que separa o samba do pagode. Conheço muita gente que até simpatiza com os sambistas mais antigos, mas tem verdadeira ojeriza do pagode e sua cultura. Neste aspecto, estou de acordo com meu colega de trabalho (chefe, na verdade). Sucede que, para mim, o mesmo acontece com outros estilos populares. No que se refere a blues e jazz, por exemplo, gosto de uma dúzia de músicos, mas me pesa no desgosto toda a degenerescência desses estilos que, não obstante, continua a se entender como blues e jazz. Então, quando eu vejo alguém que sente náuseas ao ouvir falar de pagode, mas que se declara um amante de blues, jazz e rock, pergunto-me se ele tem a consciência de que as distâncias entre samba e pagode, de um lado, e blues e rock, de outro, são da mesma grandeza. Ademais, o pagode costuma ser muito ruim devido a sua proposta puramente comercial. O que dizer, porém, de ruídos chamados de «trash metal», «black metal melódico» e outras excrescências? Os sujeitos que produzem essas coisas não têm nem mesmo a desculpa da proposta comercial. Eles não fazem música pra se vender, eles apenas são ruins e têm um péssimo gosto – e não só para a música, suas vestimentas demonstram total falta de compreensão da realidade mesma.

A propósito, acho ridículo um sujeito que gosta de cultura popular e faz discursos esnobes e elitistas. Um sujeito como eu. Você sabe, daqueles que diz «nossa, você gosta desse rock moderninho? Eu só ouço Black Sabbath». O que ele quer, aplausos? É particularmente ridículo quando o sujeito não tem a menor percepção de que o está sendo. Ou como fez uma amiga minha, de quem gosto muito, que disse não admitir que seu namorado nunca tivesse lido Nietzsche. Sem entrar no mérito do que realmente vale o filósofo alemão, trata-se da típica arrogância de amantes da cultura popular. Imagino o constrangimento que minha amiga passaria se fizesse seu comentário diante de alguém cujas referências são mais profundas.

- Eu não posso namorar com um cara que nunca leu Nietzsche!
- E você já leu, digamos [pigarro], Aristóteles ou Sto. Tomás?
- Não.
- Já leu Tucídides ou Heródoto?
- Não.
- Já ouviu Jean-Philippe Rameau ou Domenico Scarlatti?
- Nunca.

Ou se essa amiga, um dia, gostar de um rapaz de bom gosto e ouvir dele:

- Sinto muito, mas eu não posso namorar com alguém que não saiba qual é o movimento da terceira parte do primeiro dos Brandenburgische Konzerte.

domingo, 12 de outubro de 2008

As respostas de Bernanos

Duas passagens do Journal d’un Curé de Campagne, de Georges Bernanos, tocam-me de maneira particular. Considero-o um livro excelente e acho difícil pensar em outros que se lhe equiparem em profundidade. Há alguns que adoro, mas que não me trazem muito mais do que um bom divertimento. As duas obras mais famosas de Stendhal, por exemplo, são grandes e sensacionais histórias, embebidas de uma fina psicologia, mas não vão, parece-me, fazer com que um sujeito interrompa a leitura, leve as mãos à cabeça e medite profundamente sobre o sentido de sua existência. Eu já imagino a enxurrada de objeções que poderiam ser feitas a tal argumento, e a maior parte, se feita ao vivo, deixar-me-ia embaraçado e em seguida mudo, porque sou inseguro, desajeitado e não consigo discutir com mais de duas pessoas me inquirindo – neste caso eu simplesmente me resignaria e diria «certo, certo, mudemos de assunto», antes que começasse a gaguejar de nervosismo.

Mas antes que vocês me atrapalhassem com objeções, eu dizia que os dois maiores livros de Stendhal são excelentes, muito bons mesmo, de psicologia refinada – não à toa, Nietzsche o chama de «o último grande psicólogo da França» –, mas não vão muito além de uma ótima diversão. A história é outra com o Journal, ao menos para mim. Eu poderia citar dezenas de trechos para me justificar, mas citarei apenas dois.

Um pensamento muito comum em pessoas pouco simpáticas à religião católica (e eu conheço um monte delas) é o de que, no fundo, católicos são infelizes e querem que você acredite em Deus e tente ser puro apenas para ser infeliz como eles. É como se acusassem você de tentar ser feliz, ao invés de segui-los em sua triste vida. Por isso, considero de uma sensibilidade monumental esta divagação da personagem de Bernanos:

«O erro de muitos padres mais zelosos do que sábios é o de supor a má-fé: vós não credes mais porque a crença vos constrange. Quantos padres eu ouvi falar assim! Não seria mais justo dizer: a pureza não nos é prescrita assim como um castigo, ela é uma das condições misteriosas mas evidentes – a experiência o atesta – deste conhecimento sobrenatural de si mesmo, de si mesmo em Deus, que se chama a fé. A impureza não destrói esse conhecimento, ela acaba com sua necessidade. Não se crê mais, pois não se deseja mais crer. Vós não desejais mais vos conhecer.»

A segunda passagem é de ordem bem mais pessoal. Eu sempre fui tolhido por uma grande insegurança, e é difícil não se deixar enganar por ela às vezes, acreditando se tratar antes de uma forma de humildade. Porque, quando somos inseguros e hesitantes, tendemos a tratar os outros com uma espécie de complacência e nos sentirmos humildes com isso. Eis o que diz a personagem:

«É certo que eu duvidei demais de mim, até aqui. A dúvida de si não é humildade, creio mesmo que ela é por vezes a forma mais exaltada, quase delirante de orgulho, uma sorte de ferocidade invejosa que faz se retornar um infeliz contra ele mesmo, para se devorar. O segredo do inferno deve estar aí.»

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No qual me revelo um velho ranzinza

Não há nada mais irritante do que um sujeito utilizar minha preocupação e maneiras polidas como ensejo para tentar ser engraçado. Exemplo: um dia desses cheguei na Livraria Cultura, meu local de trabalho há quase dois meses, e o sistema de toda a loja caíra. Eu não podia bater o ponto sem o dito sistema, e, sendo para mim uma situação nova, perguntei a um colega se haveria algum problema em só bater o ponto depois que o sistema voltasse – o que, do ponto de vista do sistema, seria um atraso. Minha pergunta deixava implícita uma outra, a saber, se nesses casos havia um outro procedimento para bater o ponto. Então ele virou, simulou um rosto sério, mordeu os lábios, refletiu por alguns segundos e me disse: «sim, isso é um sério problema, você vai tomar uma advertência». Eu respondi com meu habitual sorriso simpático e condescendente, e mantive o sorriso enquanto ele revelava a arguta brincadeira: «não cara, é brincadeira, não pega nada!». Aí eu me pergunto quantos homicídios não começaram com uma piadinha desprezível.

Em nenhum momento acreditei que meus chefes fossem registrar um atraso naquele dia. Isto, aliás, lembra-me uma cena de A Roda da Fortuna, filme que vi há anos. Os empregados de uma empresa, após permanecerem imóveis e em silêncio por um minuto para homenagear o chefe que morrera, são em seguida avisados de que aquele minuto seria descontado de seus salários.

Dois dias atrás, uma mulher abordou outro colega da livraria e disse em tom educado: «boa tarde, eu reservei um livro com vocês mas não me lembro do nome do rapaz com quem falei». A resposta? «Hmmm, então não há o que fazer», seguida, adivinhem, de uma risada que dava vergonha – porque, francamente, não era engraçado – e o fatídico «brincadeira, não há problema nenhum! É só se dirigir ao setor de reservas!». Se eu fosse a mulher, teria pensado «sim, fora o fato de você ser uma besta, não há mesmo nenhum problema».

Ainda no capítulo das piadas cretinas, acho terrível quando alguém não me conhece e, após ouvir meu pedido educado e respeitoso, simula uma reação de enfado e irritação. Exemplo:
- Oi, você pode me emprestar seu grampeador por dois minutos?
- Ai, que saco! Tá bom vai, dessa vez passa!
É quase certo que, passados alguns minutos, essa pessoa vá dizer algo como «olha, era brincadeira, viu?». O que era brincadeira? O fato de você ser uma débil mental? O exemplo do grampeador também ocorreu comigo. Detalhe: a menina que tentou ser engraçada estava com uma pilha de notas fiscais para grampear e apenas um grampeador.

Tudo bem, tudo bem. Vocês podem achar que eu sou apenas um velho ranzinza e ressentido. É algo a se considerar. Mas ainda creio que o mundo seria um lugar melhor se todos tivessem a compreensão do quão pouco são engraçados e se limitassem a respostas discretas.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Revolta

Meu desenvolvimento intelectual até os vinte e três anos pode, grosso modo, ser dividido em três momentos. Desnecessário dizer que a divisão em momentos só é útil para efeito explicativo. É evidente que as coisas são muito mais sutis; as filigranas do desenvolvimento intelectual – conclusões, dúvidas, inquietações – não podem ser traduzidas por uma categoria grosseira como um «momento». Feita a ressalva, prossigo.

No primeiro, convenci-me de que o mal no mundo tinha como causa o capitalismo. Como diz Gustavo Corção, em A Descoberta do Outro, «fiquei convencido, nesse tempo, de que o mundo estava torto, intencionalmente torto, por malícia humana, para benefício exclusivo da detestada classe burguesa. Não havia tragédia nem mistério de iniqüidade, o que havia era trapaça. Um jeito que se lhe desse e o mundo endireitaria.». É verdade que, enquanto fui marxista, nunca soube até que ponto era possível acusar os burgueses por sua suposta maldade, e até que ponto eles eram inocentes, sendo a classe burguesa a única culpada. Todo marxista deve viver um dilema parecido. Porque, lá no fundo, ele quer alguém de carne e osso para culpar; ele quer alguém de quem possa dizer «é tudo culpa dele!». Mas aí ele começa a ler O Capital e, já no prefácio, descobre que «as pessoas só interessam na medida em que representam categorias econômicas, em que simbolizam relações de classe e interesse de classe». O marxista deve, portanto, excluir a responsabilidade do indivíduo por relações das quais não é senão uma criatura. Pra mim, de qualquer forma, o capitalismo era um mal e quem quer que o sustentasse também.

Num segundo momento, por razões várias, abandonei as acusações ao capitalismo e encontrei no cristianismo o responsável pela decadência humana. Não seria apropriado, aqui, afirmar que eu julgasse o homem responsável pelo mal, pelo menos não da maneira como esta afirmação é, de início, compreendida. A própria concepção de «mal», pensava eu, era uma criação de cristãos ressentidos. Nisto eu apenas repetia Nietzsche, para quem, em todos os estados originais da humanidade, «mau» significou o mesmo que «individual», «livre» e «imprevisível»; foi o cristianismo e todo seu ressentimento que denominou o homem forte e livre como mau e imoral. A doutrina cristã, por conseguinte, não era culpada pelo mal em si – porque, para mim, isso não existia –, mas por fazer com que o homem forte se sentisse culpado da própria força.

No terceiro momento, aprofundei meu pessimismo com relação ao homem e intuí que a idéia de «bem» e «mal» não era, assim, simplista como julgava antes. Ademais, seria otimismo em demasia acreditar que as mazelas humanas tinham como causa o capitalismo. A causa deveria, forçosamente, ser muito anterior. Intuí, então, que o homem era inclinado para o mal e toda a Criação era má. Simples assim.

Minha revolta chegou, então, a seu apogeu. Foi aí que me dei conta – e isso me parece hoje de uma obviedade patente – que toda revolta tem uma base comum; toda revolta é, de certa forma, a mesma revolta, diferindo apenas em profundidade. Isso se me tornou evidente com a leitura de Ravachol e os Anarquistas, reunião de documentos e depoimentos de anarquistas franceses organizada por Jean Maitron. De toda a bibliografia anarquista que conheço, esta é a obra mais interessante. Trata-se de um retrato da face mais radical do anarquismo: a chamada «propaganda pela ação», isto é, o terrorismo individual visando o Estado e a burguesia, no final do século XIX e início do XX. Entre os documentos, encontram-se as memórias de Ravachol, a defesa de Emile Henry (condenado por explodir o Café Terminus) e trechos do diário de Garnier. E por que esses documentos são tão interessantes? Porque revelam a revolta em seu grau superlativo. Diferentemente dos anarquistas que permaneceram em sindicatos, «demasiado cobardes para se revoltarem», esses terroristas não reconheceram a ninguém o direito a lhes julgar. Considerando-se oprimidos não só por seus patrões, pelo Estado ou pela burguesia em geral, mas – por que não dizer? – por Deus mesmo, declararam guerra à sociedade e permaneceram criminosos até serem presos ou mortos. Ravachol, Emile Henry e companhia são a realização histórica do único de Max Stirner. Alguns deles seguiram um caminho semelhante ao que afirmei ter feito acima. De início, flertaram com os comunistas; depois, conheceram os anarquistas e entraram em sindicatos; por fim, transbordando de revolta, passaram ao terrorismo – o que, por favor, eu nunca fiz. Creio, porém, que se tivessem vivido um pouco mais compreenderiam o aspecto gnóstico de sua revolta e, quem sabe, arrepender-se-iam e voltariam atrás.

Hoje, sou tentado a enxergar um comunista apenas como um revoltado sem muita profundidade. Já o anarquista, esse foi um pouco além. Quando, porém, o revoltado antevê o caráter metafísico de sua revolta, aí ele se torna um caso mais interessante. Por paradoxal que possa parecer, creio que o aprofundamento da revolta pode ser um caminho para superá-la. Pelo menos o foi para mim. Porque, chegando ao limite de minha revolta e vendo a completa impossibilidade de sustentar aquela posição, decidi fazer o caminho de volta.

domingo, 28 de setembro de 2008

Aviso

Estimo que, após um mês sem escrever neste blog, perdi todos os meus parcos (e preciosos) leitores. Paciência. Se algum restou, porém, asseguro-lhe que a partir de agora o blog será atualizado ao menos quinzenalmente.