quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ainda a decadência

Permitam-me esclarecer um aspecto do post anterior, que, escrito com certo açodamento, não saiu de todo correto. É evidente que, sendo o fenômeno do patriarcalismo circunscrito a determinado período da história brasileira, os autores cujas vidas acompanharam seu declínio o terão como tema natural para suas obras. Isto quer dizer que, se aqueles que viveram o fim da sociedade patriarcal no Brasil resolvem escrever sobre tal fim, trata-se de algo tão compreensível que não é nem mesmo digno de nota. Ninguém estranharia um judeu que vivesse o Holocausto e escrevesse sobre ele, etc. etc.

Porém, não era este o fenômeno que desejava assinalar. No tocante a algumas instituições da história brasileira, a impressão que se tem é a de que elas nasceram fétidas, arrastaram-se por décadas num estado de decomposição e, por fim, extinguiram-se. Não há, nessas instituições, nada de louvável ou glorioso. A nenhum homem que delas tenha participado pode ser dado, parece-me, o adjetivo de virtuoso. Naquele Brasil patriarcal, coronelista, de monocultura escravocrata e latifundiária, nunca teria havido um spoudaios sequer.

Tudo isto veio-me à mente enquanto lia Fogo Morto, que, em minha visão de então, era mais um belo exemplar de literatura sobre a decadência brasileira - no caso, da decadência do patriarcalismo e dos engenhos.

Entretanto, ao olhar a obra com mais atenção, logo vi se tratar de caso distinto. Não de todo, mas um pouquinho. É o primeiro livro que leio de José Lins do Rego, mas, a julgar por esta obra apenas, o autor se encontra um pouco distante da literatura da decadência, assim como Gilberto Freyre está distante da sociologia da decadência.

Os engenhos de Lins do Rego não são de todo desprezíveis. Pelo contrário. Na segunda parte de Fogo Morto, somos introduzidos ao engenho Santa Fé. É decerto um engenho decadente. Porém, nos tempos do coronel Tomás Cabral de Melo, era admirável. O próprio coronel, aliás, era figura que impunha respeito. Entre outras coisas, isso se devia ao fato de ser um bom trabalhador, e de não ligar para os preconceitos bocós dos outros senhores. Assim, por exemplo, o coronel Tomás ia, ele próprio, com seus comboios de açúcar até a cidade, onde venderia a mercadoria. Tal atitude escandalizava a todos. «Como era que um senhor de engenho se dava a uma posição daquela, sair acompanhando os cargueiros, como se fosse um feitor, um qualquer?».

É claro, o engenho Santa Fé tinha escravos. Mas eles não apanhavam como nos engenhos vizinhos. «Negro que apanhava só tivera um, o Luís, que bebia muito e ficava impossível, malcriado, querendo dar nos outros». Percebem? O Santa Fé parece um engenho decente. Havia escravidão, preconceito, patriarcalismo, mas isso, hypocrite lecteur, isso havia em todo o resto. O Santa Fé era um engenho digno. Tomás Cabral de Melo era um coronel digno. Trabalhava tanto ou mais que seus escravos. Não era um camumbembe qualquer.

As personagens de Fogo Morto não são completamente boçais. Dá até pra ver traços de virtude nalgumas delas, que só não se destacam mais devido ao orgulho desmedido que impera por todo lado. Enfim, tudo isto é para dizer que, se no referido romance não vemos um engenho de portento, governado por um coronel virtuoso, ao menos vemos algo próximo, o que dá a entender que isso seria possível. Não é, pois, mais um livro a tratar as instituições brasileiras como lodaçais de vícios e opressão, donde nada de bom poderia surgir.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A decadência dos trópicos

Aproveito as férias para ler Fogo Morto, de José Lins do Rego. Ótimo romance. Uma coisa, porém, chama-me a atenção. Não é que eu não me interesse pela decadência do patriarcalismo e dos senhores de engenho no Brasil. Há ótimos romances sobre o assunto - veja-se, por exemplo, Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso. Apenas fico com a vaga sensação de que, a julgar pela literatura, algumas coisas no Brasil nasceram decadentes. Vejam vocês quantas obras - sejam sociológicas, políticas ou romances - sobre patriarcalismo, engenhos, coronelismo, bandeiras, etc., tratam de seus períodos de decadência e quantas tratam de sua glória. Alguém já viu alguma dissertação de Sociologia intitulada «Glória e Prosperidade do Patriarcalismo Paraibano»? Eu nunca procurei, mas imagino que não exista.

Esta pequena divagação me conduz a uma outra, qual seja: na longínqua hipótese de o Brasil se tornar uma potência - não, isso não vai ocorrer, e de todo modo uso o termo potência de modo propositalmente vago -, será que as instituições brasileiras supracitadas se tornarão menos decadentes? Comparem, por exemplo, a imagem difusa que nossa mente conserva do que aprendemos sobre, digamos, os pioneiros norte-americanos e os bandeirantes brasileiros. Na minha mente, vejo os pioneiros como desbravadores, homens decentes que agiam movidos por algum ideal. Em contrapartida, a imagem que tenho dos bandeirantes é esta: índios e caboclos boçais, sujos e descalços, comandados por um ou dois brancos sujos, de braguilhas desabotoadas (supondo que as tivessem), todos eles na mais profunda complacência com a imoralidade, agindo tão-somente por razões imediatas e instintos. Em suma: os primeiros, homens de bem; os segundos, animais. Aos primeiros eu apresentaria minha família; aos segundos eu diria «xô, xô, sai daqui».

Como dizia, será possível que, se um dia o Brasil se tornar uma nação respeitável, os senhores de engenho e os bandeirantes se tornarão menos repulsivos? O patriarcalismo se tornará uma instituição menos decadente? Prefiro pensar que não.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Os 10 mais dos anos 00


Vejam aqui a lista dos dez maiores discos dos anos 2000 segundo a Radiola Urbana. A lista tem algumas boas surpresas, como o "Rádio S.amb.a" (2000), da Nação Zumbi, e "Inspiration Information" (2009), de Mulato Astatke e os Heliocentrics. Mas eu jamais subscreveria a escolha de Jay-Z, qualquer que seja o disco.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A recusa da realidade

Entre 1892 e 1894, houve em França um verdadeiro surto de anarco-terrorismo. Um dos mais famosos casos foi o de Émile Henry. Em seu julgamento, pouco antes de explicar seus atos, o jovem anarquista se levantou, virou-se para os jurados e disse: «Não é uma defesa que vos quero apresentar. Não tento de forma alguma furtar-me às represálias da sociedade que ataquei. De resto, só aceito um único tribunal - eu próprio; e o veredicto de qualquer outro me é indiferente».

Imaginem o assombro e a perplexidade pelos quais foram acometidos os jurados. A maior parte deve ter se ressentido do fato de o réu se mostrar tão convicto das próprias ações. O problema é que, digamos, uma dessas ações foi a explosão de um café em Paris. Menos de um mês depois, Émile foi condenado à morte e executado.

Não creio que a afirmação feita aos jurados seja, em si, moralmente repreensível. Pelo contrário. Trata-se de uma defesa da consciência individual. Porém, ela carrega também a recusa convicta da realidade. Por mais que nunca admitisse, o jovem e revoltado anarquista não queria senão fazer a coisa certa. Ele queria fazer o bem, ainda que, para ele, isto significasse matar burgueses e atacar a moral vigente.

A revolta de Émile Henry é uma revolta metafísica. Diz Camus que «o revoltado desafia mais do que nega». Ainda que se dissesse ateu, o fato é que Émile não suprimiu Deus, apenas quis falar-Lhe de igual para igual. Se os jurados se ressentiram de suas palavras, é certo que o ressentimento de Émile para com a realidade era muito maior. São rancores como esse que criaram os Robespierres.

No referido episódio, a recusa da realidade é patente. Ela o é bem menos nas situações banais de nosso cotidiano. A cada vez que ouvimos um «mas o que você quer que eu faça?», ou um «mas por que eu?» - não raro proferido por nós mesmos -, voilà, lá está nossa revolta por termos nosso desejo contrariado. Recusamo-nos a enxergar as conseqüências de nossos atos sobre outras pessoas. No entanto, gritamos e choramingamos quando, na situação inversa, temos que pagar pelo mal cometido por outrem.


Tenham todos um feliz natal.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Le vote suisse contre les minarets

Não deixem de ler, no blogue do Ivan Rioufol, seus comentários sobre o voto suíço contra os minaretes islâmicos. A Folha entrevistou o deputado Oskar Freysinger, autor da proposta (aqui). A entrevista dá a entender que o senhor Freysinger é um ultranacionalista xenófobo e radical. Eu não sei, talvez seja mesmo. Mas não custa lembrar que Bruxelas, a capital da União Européia, será, em vinte anos, majoritariamente muçulmana.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sobre a objeção da muleta

Esta é, talvez, a mais comum. A religião é uma «muleta» para aqueles que não agüentam a verdade, a saber, que Deus não existe, nem o bem e o mal, e a vida não tem sentido. O religioso é covarde e fraquinho porque ele precisa acreditar que há algo além, do contrário se mataria. O cético-ateu, por outro lado, é capaz de reconhecer a falta de legitimidade da existência e sorrir. Enquanto a ausência de sentido da vida atinge o religioso de modo fulminante, o cético-ateu apenas mata-a no peito e a chuta para longe. Se estivessem em uma montanha russa que terminasse em um precipício, o religioso taparia os olhos com as mãos e, em desespero, tentaria se convencer de que o precipício não existe. Em contrapartida, o cético-ateu abriria os braços - em gesto que representa sua corajosa aceitação da existência tal qual ela é, sem sentido e sem valores - e, gargalhando, entoaria um «I have a lust for life!».

Não tenho muito que objetar à objeção da muleta. Mas me permito fazer duas considerações. Às vezes, diz-se que o uso da muleta é uma atitude covarde, pois significa escolher o caminho mais fácil. «Ah, seu covarde, você quer acreditar em Deus porque assim é mais fácil». Ao refletir sobre tal argumento, vem-me à mente a seguinte situação. Dois amigos entram em um restaurante, sentam-se e chamam o garçom. O primeiro pede salmão com alcaparras e o segundo pede um prato cheio de cocô. O que o primeiro responderia se o segundo lhe objetasse, enquanto mastiga aquela massa fétida, ter ele escolhido o caminho mais fácil? Acho que responderia algo do tipo: «sim, é verdade. Comer salmão é mais fácil. A propósito - e se virando para o garçom -, traga mais cocô que o meu amigo está faminto».

A segunda consideração é que, mesmo que se admita ser a religião uma muleta, existe alguém a viver sem qualquer tipo de muleta? Quer dizer, seria possível a alguém viver repetindo a si próprio, a todo instante, dia após dia, que a vida não tem nenhum sentido - ou, como diz o homem ridículo de Dostoievski, que «tudo tanto faz» - e fazê-lo sem a ajuda de entorpecentes, narcóticos, humanismos ateus e outros vícios? Acho que não.

sábado, 31 de outubro de 2009

Frases ranzinzas


«Eu também não acredito em uma moral universal. Isso é bobagem.»

(Da série Coisas engraçadas ditas a você por um estelionatário, pouco depois de você dizer a ele que o bem em si não existe e que a moral é relativa, e pouco antes de você descobrir que ele lhe roubou todas as suas economias)