domingo, 12 de outubro de 2008

As respostas de Bernanos

Duas passagens do Journal d’un Curé de Campagne, de Georges Bernanos, tocam-me de maneira particular. Considero-o um livro excelente e acho difícil pensar em outros que se lhe equiparem em profundidade. Há alguns que adoro, mas que não me trazem muito mais do que um bom divertimento. As duas obras mais famosas de Stendhal, por exemplo, são grandes e sensacionais histórias, embebidas de uma fina psicologia, mas não vão, parece-me, fazer com que um sujeito interrompa a leitura, leve as mãos à cabeça e medite profundamente sobre o sentido de sua existência. Eu já imagino a enxurrada de objeções que poderiam ser feitas a tal argumento, e a maior parte, se feita ao vivo, deixar-me-ia embaraçado e em seguida mudo, porque sou inseguro, desajeitado e não consigo discutir com mais de duas pessoas me inquirindo – neste caso eu simplesmente me resignaria e diria «certo, certo, mudemos de assunto», antes que começasse a gaguejar de nervosismo.

Mas antes que vocês me atrapalhassem com objeções, eu dizia que os dois maiores livros de Stendhal são excelentes, muito bons mesmo, de psicologia refinada – não à toa, Nietzsche o chama de «o último grande psicólogo da França» –, mas não vão muito além de uma ótima diversão. A história é outra com o Journal, ao menos para mim. Eu poderia citar dezenas de trechos para me justificar, mas citarei apenas dois.

Um pensamento muito comum em pessoas pouco simpáticas à religião católica (e eu conheço um monte delas) é o de que, no fundo, católicos são infelizes e querem que você acredite em Deus e tente ser puro apenas para ser infeliz como eles. É como se acusassem você de tentar ser feliz, ao invés de segui-los em sua triste vida. Por isso, considero de uma sensibilidade monumental esta divagação da personagem de Bernanos:

«O erro de muitos padres mais zelosos do que sábios é o de supor a má-fé: vós não credes mais porque a crença vos constrange. Quantos padres eu ouvi falar assim! Não seria mais justo dizer: a pureza não nos é prescrita assim como um castigo, ela é uma das condições misteriosas mas evidentes – a experiência o atesta – deste conhecimento sobrenatural de si mesmo, de si mesmo em Deus, que se chama a fé. A impureza não destrói esse conhecimento, ela acaba com sua necessidade. Não se crê mais, pois não se deseja mais crer. Vós não desejais mais vos conhecer.»

A segunda passagem é de ordem bem mais pessoal. Eu sempre fui tolhido por uma grande insegurança, e é difícil não se deixar enganar por ela às vezes, acreditando se tratar antes de uma forma de humildade. Porque, quando somos inseguros e hesitantes, tendemos a tratar os outros com uma espécie de complacência e nos sentirmos humildes com isso. Eis o que diz a personagem:

«É certo que eu duvidei demais de mim, até aqui. A dúvida de si não é humildade, creio mesmo que ela é por vezes a forma mais exaltada, quase delirante de orgulho, uma sorte de ferocidade invejosa que faz se retornar um infeliz contra ele mesmo, para se devorar. O segredo do inferno deve estar aí.»

3 comentários:

hipergheto disse...

Sim, Bernanos nos faz parar, por a mão na cabeça e refletir. Concordo com vc. Retorno sempre ao Diário de um pároco... Sou de uma insegurança incrível tmb e me peguei no contrapé na parte que vc cita do livro. Uma coisa: perceber-se doente é sinal de saúde? Faço-me esta pergunta sempre em relação a vaidade.

Julio disse...

Sensacional. Quem me dera escrever com essa honestidade! Refiro-me a ambos, a vc e ao Bernanô. :)

xyz disse...

Direto ao ponto nos excertos. Memória livresca, paciência: I) Pieper sobre pureza (versão em inglês): "For us men and women of today, who are of the opinion that in order to know the truth one need only more or less strain one’s
brain, and who scarcely regard as sensible the concept of an ascesis of the intellect–for us, the deeply intrinsic connection that links the knowledge of truth to the condition of purity has vanished from our consciousness" (Josef Pieper, A Brief Reader on the Virtues of the Human Heart, 42).II) Hans Urs von Balthasar em "Gelebte Kirche: Bernanos", seu livro sobre o homem de Cruz das Almas (traduzo preguiçosamente do alemão):"A pureza enquanto castidade é preparação para aquela simplicidade, que a si própria não em si mesma, sim apenas em Deus pode e quer se discernir/conhecer" ("die sich nicht in sich selber, sondern nur in Gott erkennen kann und will." Pois é, quem me dera um pouco dessa honestidade.[a quem interessar, xyz is aka Ricardo Leal.]