quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No qual me revelo um velho ranzinza

Não há nada mais irritante do que um sujeito utilizar minha preocupação e maneiras polidas como ensejo para tentar ser engraçado. Exemplo: um dia desses cheguei na Livraria Cultura, meu local de trabalho há quase dois meses, e o sistema de toda a loja caíra. Eu não podia bater o ponto sem o dito sistema, e, sendo para mim uma situação nova, perguntei a um colega se haveria algum problema em só bater o ponto depois que o sistema voltasse – o que, do ponto de vista do sistema, seria um atraso. Minha pergunta deixava implícita uma outra, a saber, se nesses casos havia um outro procedimento para bater o ponto. Então ele virou, simulou um rosto sério, mordeu os lábios, refletiu por alguns segundos e me disse: «sim, isso é um sério problema, você vai tomar uma advertência». Eu respondi com meu habitual sorriso simpático e condescendente, e mantive o sorriso enquanto ele revelava a arguta brincadeira: «não cara, é brincadeira, não pega nada!». Aí eu me pergunto quantos homicídios não começaram com uma piadinha desprezível.

Em nenhum momento acreditei que meus chefes fossem registrar um atraso naquele dia. Isto, aliás, lembra-me uma cena de A Roda da Fortuna, filme que vi há anos. Os empregados de uma empresa, após permanecerem imóveis e em silêncio por um minuto para homenagear o chefe que morrera, são em seguida avisados de que aquele minuto seria descontado de seus salários.

Dois dias atrás, uma mulher abordou outro colega da livraria e disse em tom educado: «boa tarde, eu reservei um livro com vocês mas não me lembro do nome do rapaz com quem falei». A resposta? «Hmmm, então não há o que fazer», seguida, adivinhem, de uma risada que dava vergonha – porque, francamente, não era engraçado – e o fatídico «brincadeira, não há problema nenhum! É só se dirigir ao setor de reservas!». Se eu fosse a mulher, teria pensado «sim, fora o fato de você ser uma besta, não há mesmo nenhum problema».

Ainda no capítulo das piadas cretinas, acho terrível quando alguém não me conhece e, após ouvir meu pedido educado e respeitoso, simula uma reação de enfado e irritação. Exemplo:
- Oi, você pode me emprestar seu grampeador por dois minutos?
- Ai, que saco! Tá bom vai, dessa vez passa!
É quase certo que, passados alguns minutos, essa pessoa vá dizer algo como «olha, era brincadeira, viu?». O que era brincadeira? O fato de você ser uma débil mental? O exemplo do grampeador também ocorreu comigo. Detalhe: a menina que tentou ser engraçada estava com uma pilha de notas fiscais para grampear e apenas um grampeador.

Tudo bem, tudo bem. Vocês podem achar que eu sou apenas um velho ranzinza e ressentido. É algo a se considerar. Mas ainda creio que o mundo seria um lugar melhor se todos tivessem a compreensão do quão pouco são engraçados e se limitassem a respostas discretas.

3 comentários:

recarone disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Julio disse...

Olá, sou o cara que disse que vc ia tomar uma advertência. Já estou movendo um processo por difamação. Brincadeira! :D

Zé Luis disse...

"O moço, você trabalha aqui?"
(pensamento: não, eu uso este crachá para me divertir na "night".)
"Sim, trabalho. Posso ajudá-la?
"Você têm Crepúsculo?"
(pensamento: por que a gente não compra logo 1 tonelada daquela joça e distribui como ajuda humanitária?)
"Vou verificar. Em português?"
"Ou inglês, tanto faz.""
(pensamento: em se tratando de Stephenie Meyer, não deve fazer diferença mesmo, capaz que a tradução melhore o original.)
"Em português acabou, em inglês só no fim de janeiro. Tá vendendo que nem água."
(pensamento: por que digo "que nem água"... a água não merece tal comparação.)
"Será que eu vou aguentar?"
(pensamento: vai, ô se vai, se Moisés agüentou quarenta anos no deserto, uma mocinha como você agüenta quarenta dias.)
"Você quer que eu traga de outra loja?"
"Não, eu vou esperar."
(pensamento: ora bolas, se é urgente, você deveria querer que eu trouxesse de outra loja.)
"Tudo bem. O próximo!"
"Você têm Crepúsculo?"
(repetição ad nauseam e ad infinitum)